
Marco Antônio, autodeclarado de direita, disse acreditar que o governo brasileiro deve fazer mais para combater o problema da desigualdade social, visão compartilhada com Pedro José Alencar, de esquerda. Para ele, o País precisa agir de maneira mais efetiva diante dessa situação. Ana Carolina Souza, também progressista, afirma que o aumento do policiamento é uma solução para o crime no Brasil. Fernando de Paiva, economista, que se posiciona como de centro, defende a mesma coisa.
Quando se observa que indivíduos com posicionamentos ideológicos distintos compartilham opiniões e preocupações semelhantes, surge um questionamento: a polarização política no Brasil é tão profunda quanto parece? A pesquisa O Brasil Invisível, publicada no ano passado pela organização internacional More in Common, mostra que os brasileiros se relacionam com a política para além das divisões mais aparentes do debate público. No fundo, o estudo afirma que mesmo entre os mais diferentes, há oportunidade para a conversa.
Em uma pesquisa de campo realizada pela Agenzia com 30 entrevistados na Avenida Paulista, foi possível perceber a complexidade de opiniões e pensamentos políticos de grupos sociais semelhantes ou radicalmente diferentes. Eles possuem opiniões similares, rejeitam rótulos políticos, demonstram contradições e expressam o desejo de um Brasil melhor.
Segundo Kátia Ferreira, de 50 anos, o País vive um cenário de forte polarização, no qual o diálogo tem se tornado cada vez mais difícil. “As pessoas não se entendem mais, entram em discussões apenas para ter razão e já não conseguem dialogar”, afirma. Em contrapartida, há quem questione essa percepção. Pedro Alencar disse acreditar que a polarização amplamente difundida pode não corresponder à realidade da sociedade.
A pesquisa ‘O Brasil Invisível’
A pesquisa O Brasil Invisível divide a população em três grandes blocos: progressistas, invisíveis e conservadores. No primeiro bloco estão os progressistas, divididos entre progressistas militantes (5%), mais engajados e ideológicos, e a esquerda tradicional (14%), que apoia mudanças sociais, mas com posições mais moderadas e ligadas à religião.
No segundo bloco, aparecem os invisíveis, que concentram a maior parte da população brasileira. Eles se dividem entre desengajados e cautelosos, ambos agrupando cerca de 27% da população. Os desengajados evitam conflitos políticos, embora tenham opiniões, e priorizam soluções práticas do dia a dia. Os cautelosos expressam uma desconfiança ampla, mas não transformam essa frustração em engajamento coletivo.
Entre os conservadores estão os conservadores tradicionais (21%), guiados por valores de família, religião e autoridade, e os patriotas indignados (6%), mais radicalizados e com forte discurso de rejeição às instituições.

A pesquisa revela que, mesmo em um cenário de “polarização”, ainda há uma percepção de proximidade entre os brasileiros, mostrando que temos muito mais em comum do que parece. Ou seja, a polarização política no Brasil pode estar sendo mais barulhenta do que numerosa. “Uma ampla maioria gostaria que as forças políticas superassem o antagonismo e trabalhassem juntas para resolver os problemas concretos da população”, afirma o estudo.
A opinião na rua

Para esta reportagem da Agenzia, o grupo de entrevistados foi composto por pessoas de 18 a 80 anos, sendo a maioria (34,5%) pertencente à faixa etária dos 50 a 60 anos. Entre eles, 48,3% se identificavam como de esquerda e 58,6% possuíam ensino superior completo. Para todos, foram feitas cinco perguntas fechadas: o Brasil está muito polarizado politicamente? (96,6% concordaram que sim); a política hoje divide mais as pessoas do que resolve problemas? (93,1% afirmaram que sim); o governo deveria fazer mais para reduzir a desigualdade social? (100% concordaram); a melhor forma de combater o crime é aumentar punições e policiamento? (65,5% disseram que sim); você costuma evitar falar de política para evitar discussão? (44,8% evitam).
Pesquisa de rua com 30 entrevistados na Avenida Paulista, São Paulo. Respostas afirmativas (em número de pessoas).
Curiosamente, para a maioria dos entrevistados, o maior problema do Brasil hoje está entre a desigualdade social (13 respostas) e a polarização (5 respostas). Nas ruas, longe das disputas que dominam as redes sociais, as opiniões políticas se mostram mais diversas e menos ideológicas. Em vez de discursos alinhados a campos bem definidos, o que aparece é uma forte preocupação com problemas concretos do cotidiano.
Ao abordar a questão da segurança pública, nem todos associam a solução ao aumento de punições. Para a administradora Leila Aparecida, a raiz do problema está nas questões estruturais, ao afirmar que a melhor forma de combater o crime seria investir na educação. A desigualdade social, por sua vez, é apontada como o maior problema do Brasil atualmente, percepção também notada pela jovem Ana Carolina de Souza, que descreve: “Você sai de um shopping, vira a esquina e tem uma pessoa no chão, sem roupa, gritando e utilizando drogas.”
Esse olhar sobre a desigualdade aparece junto a outras formas de vulnerabilidade. Jaqueline da Costa, de 49 anos, ressalta que a desigualdade é enorme e que, além do racismo, a violência contra as mulheres deveria ser considerada uma das principais questões, estando presente em diferentes espaços. Ela também demonstra frustração com os políticos: “Temos que tentar fazer com que eles façam diferente por nós, mas acaba que prometem uma coisa mas fazem outra”.
Apesar disso, o diálogo ainda é visto como necessário. “Foi ensinado que política não se discute, mas ela tem que ser discutida, sim. Já que é ela que decide o que aumenta e o que sai do nosso bolso”, diz Ana Paula Moura. Muitos brasileiros formam suas opiniões a partir da experiência cotidiana, priorizando soluções práticas em meio à polarização.
Olhar dos especialistas

Caio Mello, jornalista pela Faculdade Cásper Líbero e especialista em ciência política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, é difícil definir com certeza o momento político atual: “É possível dizer que o Brasil está dividido, mas não há uma polarização tão preto no branco, é uma divisão menos simplista do que parece. É menos aquela divisão que já foi ‘coxinha e mortadela’ no passado e, depois, ‘petismo e bolsonarismo’.” Além disso, ele aponta um comportamento padronizado entre os dois lados, como o uso de slogans que são uma boa forma de alastrar ideias, porém atualmente são usados sem embasamento.
Liráucio Júnior, doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo e professor da Cásper, entende que a polarização não é bilateral, mas uma estratégia de um dos polos, e que quanto mais o indivíduo se dedica a atividades políticas, mais ele sentirá uma divisão extrema da população. Ele destaca o papel das redes sociais como forma de influenciar a percepção política das grandes massas. “ […] quando determinadas informações falsas circulam num certo espaço, a checagem dessas informações circula em outro. Ou seja, então quem deveria estar vendo um debate sobre aquele tema, uma visão mais crítica, não recebe essa essa outra informação. Então a informação de um grupo circula, mesmo ela sendo comprovadamente falsa, essa comprovação não circula nessa rede […] Isso eu acho que é um elemento que marca muito a política hoje.”
O que temos em comum?

O que os dados, as ruas e os especialistas indicam é que a polarização brasileira existe, mas é mais complexa do que a narrativa sugere. Esse descompasso entre polarização percebida e polarização real tem causas identificáveis, como os algoritmos que amplificam conflito, a desinformação que circula sem correção e uma dinâmica política que transforma pautas concretas em disputas identitárias.
Compreender essa diferença é o primeiro passo para um debate público mais fiel à realidade. Enquanto a atenção se concentra nos extremos, uma maioria silenciosa, que compartilha preocupações sobre desigualdade, segurança e representação política, segue sem voz proporcional à sua dimensão.
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