quinta-feira

9-abril-2026 Ano 2

E-commerce e comércio popular: ameaça ou adaptação na 25 de Março?

Entenda de que forma o crescimento das vendas online tem impactado o comércio físico na mais tradicional rua comercial de São Paulo.
1 Min Read 0 78

Não é difícil adivinhar o destino da maior parte do fluxo na Estação São Bento, e isso está longe de ser mera coincidência. Ao sair do metrô, várias placas já sinalizam a chegada à famosa rua 25 de Março, reconhecido ponto de encontro de compras populares da maior metrópole do Brasil. As suas cinco quadras abrangem um gigante polo comercial que atrai turistas e moradores paulistanos todos os dias.

A ascensão do famoso centro comercial ocorreu entre o final do século 19 e o início do século 20, impulsionada por árabes oriundos especialmente da Síria e do Líbano. No passado, a via era conhecida como um ponto de compra de tecidos orientais. O título se perdeu com o tempo e, atualmente, o comércio de variedades e objetos é o que atrai os compradores. É impossível ignorar que a acessibilidade de preços é determinante para consolidar a 25 de Março como uma grande potência do comércio em São Paulo, já que não é raro encontrar consumidores que deixaram de comprar em outros centros comerciais em busca do ótimo custo-benefício oferecido na região.

Mas esse velho hábito de compras presenciais na 25 de Março está perdendo seu protagonismo. Com o aumento da procura por vendas virtuais, o e-commerce, a rua vem perdendo seu domínio na capital paulista, e o fluxo de pessoas vem diminuindo nos últimos anos, de acordo com lojistas ouvidos pela Agenzia.

O novo cenário tem sido frustrante quando comparado ao de seis anos atrás, quando as vendas online não eram tão “na moda”. A diminuição do movimento da região fez com que os lojistas tivessem prejuízos em suas vendas. Douglas Roger, ambulante da 25 de Março há 11 anos, é um termômetro vivo do movimento na região. Ele é direto: está muito inferior ao que se tinha no passado. Ele utiliza o termo “vazio” para se referir ao comércio da rua.

Com menos compradores na 25 de Março, muitas lojas passaram por crises, tendo que reduzir custos e até fechar as portas. As lojas se renderam. O que antes era de resistência cultural ao e-commerce, agora se tornaram também dependentes desse comércio eletrônico por necessidade e até mesmo por exigência do setor do varejo, especialmente após a pandemia da Covid-19. Com o isolamento, as compras no ambiente digital se tornaram cada vez mais presentes no cotidiano da população brasileira. “O futuro da região não está no fim de sua relevância, mas na reinvenção de seu modelo de negócios, buscando inovações que levem o público a continuar comprando dos lojistas”, afirma à Agenzia o professor da Unifesp Evandro Luiz Lopes, especialista em marketing no varejo.

Diminuição do fluxo na 25 de Março
A diminuição do fluxo na 25 de Março. Foto: Ana Carolina Rocha/Agenzia

Estima-se que 70% dos vendedores utilizam algum tipo de ferramenta digital para fechar vendas. Os comerciantes da 25 de Março agora enviam catálogos e fotos dos produtos para compradores e revendedores de todo o Brasil. O Instagram tornou-se a principal vitrine. Já a segunda fase dessa transformação foi a adoção dos marketplaces, plataformas online que funcionam como um “shopping virtual”, reunindo diversos vendedores e marcas em um único site ou aplicativo. Muitos comerciantes optaram por entrar em sites como o Mercado Livre, Amazon, Shopee e, mais recentemente, o TikTok Shop. “O Instagram virou vitrine principal. É comum ver os funcionários fazendo lives dentro das lojas para divulgar e vender os produtos” diz a influenciadora digital, Fernanda Coxta. Até portais mais específicos, como o “25 de Março Online”, tentam reunir produtos e vendedores, facilitando a busca do comprador que deseja encontrar o “preço da 25” sem sair de casa.

Desde o ano passado, a principal tendência de vendas no polo comercial mais movimentado do País é o modelo híbrido. A loja física passou a servir como centro de distribuição (a chamada “dark store”) e ponto de retirada para compras feitas online. Com isso, surge a oportunidade de o cliente realizar a compra por meio de sites e aplicativos e retirar os produtos pessoalmente. Esse sistema garante ao comprador não só a economia no frete, mas também a possibilidade de comparar o produto com o que foi exibido nas plataformas antes de levá-lo para casa, o que nem sempre é possível nas compras online.

Esse novo estilo de vendas agrega um caráter de modernização às lojas e amplia suas possibilidades de distribuição. Por outro lado, a integração ao mercado digital trouxe diversos impactos. O Diário do Comércio disserta que o faturamento bruto da rua continua bilionário, segundo o estimado pela Univinco, porém a margem de lucro líquida tem sofrido pressões inéditas em 2025 e 2026. O faturamento do varejo de vestuário e acessórios em São Paulo (carro-chefe da 25 de Março) cresceu cerca de 10% em 2025 em relação a 2024. Já o lucro não acompanhou essa subida na mesma proporção. Com a entrada agressiva de plataformas como Shopee e Shein, os lojistas tiveram que reduzir suas margens para se manterem competitivos.

O e-commerce trouxe, para muitos, mais custo do que ganho. Os marketplaces mais utilizados, como o Mercado Livre, exigem o pagamento de comissões que variam de 12% a 20%, além de taxas de frete. Isso reduz o lucro que o lojista obtinha no modelo de venda física direta. Durante e logo após a pandemia, estima-se que aproximadamente 20% das lojas (equivalente a 1.000 CNPJs) na região da 25 de Março fecharam as portas por não conseguirem se adequar a tempo à digitalização ou suportar os custos.

Para o professor Lopes, a sobrevivência e o crescimento não dependem apenas da tradição ou do fluxo de pessoas. “A 25 tem que achar sua vocação nesse novo mundo, e isso vai acontecer quando ela se reinventar.” Logo, para que a memória da 25 de Março seja preservada, é necessário que tradição e inovação caminhem juntas para o fortalecimento comercial, além da reformulação do que não está funcionando.

Feito por Ana Carolina Rocha, Arthur Moreira Santos, Bruno Foresti, Marcela Souza, Mariana Bianchini, Rannier Almeida

🤖
UTILIZAÇÃO DE IA
Uso Mínimo de IA

A IA foi utilizada apenas para suporte pontual, com controle editorial humano integral.

  • ✅ Revisão/Edição: auxílio de IA
🛠️ Ferramentas utilizadas: ChatGPT

Ana Carolina da Silva Rocha