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9-abril-2026 Ano 2

Copa do Mundo nas redes desafia o domínio da TV aberta

O maior evento do futebol acontece em um cenário em que a televisão não monopoliza a atenção do público.
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“A nossa ideia é ser quase 24 horas por dia de Copa do Mundo.” É o que garantiu Rafael Notari, coordenador de transmissões da plataforma CazéTV, em entrevista à Agenzia. A ousada proposta vai além da exibição dos jogos. A ideia é transformar o torneio em um fluxo contínuo de conteúdo, com uma programação permanente de bastidores, transmissões e desdobramentos que acompanham o espectador para além dos 90 minutos. Na concorrente ESPN, o supervisor editorial da emissora, Chico Jubé, acrescenta: “Hoje, estamos praticamente o dia inteiro ao vivo no YouTube”. A estratégia agora não trata apenas de escolher entre plataformas, mas de ocupá-las simultaneamente.

A próxima Copa do Mundo pode marcar mais do que quem vence dentro de campo. É preciso disputar espaço com plataformas digitais que cresceram rápido, se aproximaram do público e, agora, reivindicam protagonismo.

A mudança no comportamento do público

Essa transformação não acontece de forma isolada. Segundo dados da Fifa, a Copa do Mundo de 2022, no Catar, gerou um aumento de audiência, que resultou em milhões de torcedores, um crescimento relacionado à ampliação das formas de acesso ao evento. Se antes a televisão era praticamente o único caminho, hoje o público encontra múltiplas opções e, sobretudo, passa a escolher onde, quando e quanto pagar para assistir.

A mudança também é geracional. Segundo uma pesquisa realizada por uma empresa de análise de mercado feito nos Estados Unidos, os jovens passam mais tempo assistindo esportes online do que na televisão, consolidando uma nova lógica de comportamento. Mais do que acompanhar o jogo, o espectador contemporâneo transita entre plataformas, formatos e telas.

TV e digital: dois modelos em disputa

De um lado, a televisão, sustentada por sua tradição, uma estrutura robusta e domínio técnico consolidado; de outro, o digital, que avança com linguagem própria, flexibilidade e uma lógica de presença constante. Nesse cenário, a CazéTV se destaca como um dos principais exemplos dessa transição, chegando à Copa com um projeto que rompe com o modelo clássico das transmissões esportivas. 

Essa mudança desloca o eixo da transmissão. O jogo deixa de ser o centro de interesse e passa a ser parte de um ecossistema maior. “A gente quer contar história, sair um pouco da caixa do tradicional”, explica Notari. A ideia é combinar análise, entretenimento e emoção, o que o ambiente digital permite com mais flexibilidade.

Isso não significa que a televisão não vá responder. As emissoras tradicionais vêm ampliando sua presença online e se adaptando para um público que já não consome conteúdo dentro de uma lógica rígida de grades e horários. 

A disputa pela linguagem

Esse movimento também se conecta a uma mudança mais ampla no cenário midiático. A ascensão de plataformas como YouTube, Twitch e TikTok abriu espaço para criadores de conteúdo e influenciadores, que passaram a explorar uma linguagem mais direta, próxima e, muitas vezes, menos formal. O protagonismo, antes concentrado nas grandes emissoras, passa a ser compartilhado.

A maneira como cada modelo constrói sua presença revela diferenças importantes. A linguagem, um dos pontos mais debatidos, é frequentemente apontada como um divisor entre TV e digital. A ideia de que deve ser mais leve, próxima e descontraída virou quase regra, mas nem sempre se apresenta de forma tão clara na prática. 

“Existe uma ideia de que o YouTube precisa ser mais informal, mas isso também é marketing”, diz Jubé. Para ele, a distinção está, muitas vezes, na forma como o conteúdo é percebido pelo público. 

Na CazéTV, a identidade é tida como parte central do projeto. A liberdade criativa aparece como um diferencial, permitindo experimentar formatos e explorar ideias fora do padrão televisivo.  “A gente sempre se pergunta se aquilo é linguagem CazéTV”, afirma Notari. A experimentação, assim, se torna parte fundamental do processo.

Bandeiras dos países participantes da Copa. Foto: Amir Mortezaie, Unsplash/Reprodução

Estrutura, dinheiro e limitações

A estrutura da televisão ainda se sustenta por vantagens relevantes, especialmente no campo técnico e financeiro. “Existe uma limitação no que o YouTube consegue entregar”, observa Jubé, ao mencionar os padrões mais elevados de transmissão. No digital, a situação se desenrola de outra forma: enquanto a TV trabalha com modelos mais consolidados, a oferta gratuita exige compensações, principalmente por meio de publicidade. “A gente quer oferecer o jogo de graça, mas precisa pagar as contas”, reconhece Notari. Na prática, isso significa uma dependência direta de inserção e participação de marcas e investimentos publicitários.

Além disso, existem também aspectos técnicos que impactam diretamente a experiência do público, como o delay. Em jogos simultâneos, a diferença de segundos pode ser decisiva, especialmente em ambientes coletivos, onde a reação antecede a imagem. “O delay curto da TV aberta é algo que ainda queremos alcançar no YouTube”, admite Notari. É um detalhe que, embora pequeno, ainda pesa na escolha de onde assistir. 

O alcance do digital

Se a televisão mantém vantagens estruturais, o digital se destaca pelo alcance. Sem barreiras de assinatura, plataformas como o YouTube possibilitam um aumento significativo no número de espectadores. “O YouTube é muito mais simples de acessar, e isso faz com que a gente chegue muito longe”, resume Notari. Esse fator se torna ainda mais relevante diante da queda da TV por assinatura no Brasil. Nos últimos anos, o Brasil perdeu milhões de assinantes de TV paga, enquanto plataformas digitais seguem em expansão, especialmente entre o público mais jovem.

Esse alcance também se reflete em números. Durante a cobertura da Copa do Mundo de Clubes, a CazéTV acumulou cerca de 5 bilhões de visualizações somando diferentes plataformas, segundo levantamento do site Máquina do Esporte, evidenciando a escala que as transmissões digitais já conseguem atingir.

“A gente perde assinantes a cada ano, mas a audiência dos grandes eventos continua crescendo”, revela Jubé. O dado aponta uma mudança clara: o interesse pelo conteúdo permanece, mas os meios de acesso se transformaram.

Direitos e limites do digital

Nesse contato, o digital passa a funcionar também como porta de entrada. Ao ampliar o alcance, ele permite que novos públicos tenham contato com conteúdos que antes estavam restritos a modelos pagos.

Ainda assim, a ruptura tem limites, especialmente no esporte. A dependência dos direitos de transmissão continua sendo determinante. “Sem direitos, você não tem acesso, e sem acesso, não tem audiência”, resume Jubé. Mesmo em um ambiente de mudanças, o controle do conteúdo segue concentrado.

Isso explica por que iniciativas independentes rapidamente se conectam a estruturas maiores, como a FIFA. A plataforma pode mudar, mas a necessidade de investimento permanece.

Quem sai na frente?

O crescimento das transmissões digitais esportivas ajuda a dimensionar esse cenário: eventos exibidos gratuitamente de forma online contam com milhões de espectadores simultâneos, aproximando-se, e, de certa forma, competindo diretamente, com os números da televisão tradicional.

Na Copa do Mundo, essa disputa se torna ainda mais evidente. Para Jubé, o protagonismo tende a recair sobre a CazéTV, detentora exclusiva de todos os jogos da Copa do Mundo de 2026. Ao mesmo tempo, ele reconhece que a televisão é um desafio significativo.

Uma disputa em aberto

A tendência, portanto, é de uma mudança gradual. “O futuro das transmissões esportivas é o digital”, afirma Notari. A televisão não se torna obsoleta, mas deixa de ser o centro absoluto dessa experiência.

No fim, a disputa silenciosa pela audiência não pode ser decidida apenas por quem transmite melhor, mas por quem se faz mais presente na rotina do público, na tela mais próxima, no acesso mais fácil e, claro, no formato mais familiar. Na nova lógica de transmissões, não basta ter o jogo. É preciso ser onde o jogo acontece.

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UTILIZAÇÃO DE IA
Autoria Humana Exclusiva

Este conteúdo foi produzido integralmente por humanos, sem uso de IA em nenhuma etapa.

Vitória Manocchio Delgado Vieira