quinta-feira

9-abril-2026 Ano 2

Cultura da comparação: o custo emocional de performar nas redes

Geração que cresceu online enfrenta pressão constante e síndromes geradas por exaustão na era dos algoritmos.
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O poeta Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, declama em seu famoso Poema em Linha Reta: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.” Hoje, em um momento de tédio, basta retirar o celular do bolso e, com um clique nas redes sociais, se deparar com narrativas perfeitas, corpos esculpidos e vidas potencialmente mais interessantes que a sua.

O que antes poderia causar estranhamento tornou-se natural na vida de muitos; afinal, acompanhar a vida de pessoas que, na maioria das vezes, nem se conhece já é um ato normalizado no cotidiano.

Izabella da Silva Duarte, 23 anos, começou a produzir vídeos curtos durante a pandemia de Covid-19, de forma espontânea, sem roteiros ou planos a longo prazo, guiada pela inspiração e pelo desejo de criar. “Eu estava saindo da escola e começando a entender que isso poderia vir a ser um trabalho”, afirma à Agenzia. Sob a alcunha de @izadoart, a atriz natural de São Paulo, soma hoje mais de 700 mil seguidores no Instagram e 2,3 milhões no TikTok.

Izabella Duarte/Acervo Pessoal

O Brasil, altamente digitalizado, consolidou um verdadeiro ecossistema financeiro e de influência por meio das mídias digitais. Do micro ao mega influenciador, todos fazem parte de uma engrenagem que movimenta a hierarquia de influência e dita tendências. “É uma responsabilidade, porque você influencia pessoas que se importam com a sua opinião. Eu sou uma pessoa normal que, por acaso, muita gente segue, e isso traz o peso de medir o que falo”, diz Izabella.

A população digital é exposta diariamente a milhares de vidas. Ao mesmo tempo em que consome conteúdo, também treina a máquina para reproduzi-lo, como afirma o professor e doutor em mídias Luís Mauro Sá Martino: “Quem treinou o algoritmo fomos nós. Treinamos essa ferramenta para oferecer aquilo que mostramos que temos interesse”.

No Brasil, segundo o Data Reportal, o Instagram é acessado por 91,2% dos internautas e o TikTok empata em tempo de uso diário. A distância entre observar uma vida e querer replicá-la nunca foi tão curta. O que muda nesse cenário não é só a velocidade da comparação, mas a sua forma: ela agora é personalizada, contínua e baseada para os mecanismos de busca.

Essa cultura da comparação não é um fenômeno novo, mas ganhou outra dimensão com a ascensão das redes sociais. Para a psicanalista Anna Russo, comparar-se faz parte da experiência humana, mas o ambiente digital intensificou esse comportamento. O problema não está no ato de comparar em si, mas no efeito que isso gera quando leva à desvalorização pessoal e pode afetar a construção da identidade.

Anna Russo/ Acervo Pessoal

Os algoritmos das plataformas digitais não foram criados para conectar pessoas, mas para maximizar o tempo que cada usuário passa dentro delas. Para isso, aprendem com o comportamento humano, transformando cada interação em dado e preferência registrada. Quando o feed se torna a principal fonte de referência, a fronteira entre inspiração e pressão é ultrapassada, e o que começa como pertencimento pode se transformar em exclusão.

Além disso, a pressão por produtividade e constância, impulsionada por esses mecanismos, afeta diretamente o emocional dos usuários. Um mesmo tipo de conteúdo pode alcançar milhões em um dia e ter pouco alcance no outro, levando à frustração e à necessidade constante de validação por meio de métricas. “Você precisa se manter sendo visto, senão as pessoas esquecem. É tanta coisa acontecendo que, se não é constante, você se perde no meio”, aponta Izabella.

De acordo com pesquisa publicada pelo Journal of Social and Clinical Psychology, usuários que reduziram o uso das redes sociais para 30 minutos diários apresentaram quedas significativas nos índices de ansiedade, depressão e comparação social. Os resultados indicam que a exposição prolongada e personalizada por sistemas digitais de recomendação alimenta um ciclo difícil de ser interrompido.

Existe também um mecanismo que explica por que determinados estilos de vida se repetem tanto nas redes e intensificam a cultura da comparação. Não desejamos algo apenas por suas qualidades naturais, mas porque percebemos que aquilo é desejado pelos outros. “Eu posso não ter o menor interesse em um determinado lifestyle, mas percebo que outras pessoas também querem, e, a partir disso, eu também quero”, afirma Luís Mauro.

Luís Mauro/ Foto própria/ Autor: Gustavo Oliveira

Atualmente, prestes a se formar em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, Izabella relata que já ouviu pessoas dizerem que escolheram o mesmo curso por causa dela: “Eu não consigo nem dimensionar o quanto já vieram falar pra mim isso”.

Entretanto, isso traz um ponto importante: imitar não é copiar. Para o professor Luís Mauro, o comportamento humano nas redes segue uma lógica de imitação com variações individuais. “A padronização não é absoluta, caso contrário seríamos clones, mas implica uma influência a partir do que observamos, adaptada às nossas particularidades”, afirma.

O problema surge quando essa adaptação desaparece e o indivíduo tenta se tornar o outro. Nesse momento, a comparação deixa de ser referência e passa a gerar frustração, criando uma hierarquia emocional: inferioridade diante de quem parece melhor e um alívio momentâneo ao observar quem está em situação pior.

Em casos mais intensos, a cultura da comparação pode levar à chamada síndrome do impostor, caracterizada pela sensação de não merecer as próprias conquistas, atribuindo resultados a fatores externos, como sorte, em vez de mérito.

Ainda assim, muitos criadores conseguem utilizar a internet para impulsionar seus trabalhos e transformar suas realidades. Ao ser questionada sobre desistir, Izabella afirma: “Já considerei algumas vezes, em momentos de burnout. Mas, quando paro, lembro o quanto gosto de criar. Não sei se existe um dia em que vou dizer ‘não quero mais’. Acho que sempre vou estar alinhada com a criação de conteúdo”.

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Beatriz Voullieme Silvestre

Estudante e produtora de conteúdo no projeto Agenzia, onde publico matérias sobre temas diversos ligados à cultura, comportamento e atualidades. Interesso-me por narrativas digitais e pelo papel do jornalismo na forma como a geração Z se informa e se expressa.