Mariana Ferreira ama o cinema brasileiro; Victória Maia, detesta. Mariana vai ao cinema desde que se entende por gente, enquanto Victória mal se lembra da última vez em que pisou numa sala escura. Entre as duas, percebe-se o abismo da produção cinematográfica nacional. A grande maioria dos brasileiros está mais próxima de quem foge da cultura brasileira.
Mesmo com dois filmes brasileiros indicados ao Oscar em 2025 e 2026, era de se esperar que o interesse do público pelo cinema brasileiro tivesse aumentado. Aumentou, e os quase 6 milhões de espectadores de Ainda Estou Aqui e outros 2 milhões de espectadores de O Agente Secreto provam isso. Mas eles são exceção e estão longe de virar regra. Qual seria o motivo para essa resistência?
“O tamanho do País e as limitações na distribuição de filmes, principalmente antes da digitalização, favoreceram a presença dominante de produções estrangeiras, sobretudo norte-americanas, dificultando a consolidação de um público para o cinema brasileiro.”, comenta o diretor, ator e roteirista Pedro Urizzi.
O complexo de vira-lata nas telas
“Por complexo de vira-lata entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”, já dizia Nelson Rodrigues, que cunhou o termo ainda na década de 1950. Esse conceito ajuda a explicar por que o público muitas vezes valoriza padrões estéticos de Hollywood em detrimento da identidade própria.
O crítico e produtor Ricardo Corsetti observa que esse preconceito diminuiu entre os jovens com maior instrução cultural, mas ressalta que ele ainda persiste em camadas da sociedade com menor acesso financeiro. O problema, portanto, não é apenas de gosto, mas de formação de repertório.
Geografia da exclusão

A dificuldade de acesso é explicada por uma lógica de exclusão territorial. Segundo a Ancine, mais de 90% dos cinemas estão localizados em shoppings, o que cria obstáculos para quem mora longe desses centros. De acordo com o IBGE, apenas 10% dos municípios brasileiros possuem salas de cinema, criando verdadeiros “desertos culturais”.
O custo desse lazer também dificulta o acesso para muitas pessoas. Para quem vive com um salário mínimo, esse valor pode representar até 15% da renda mensal. Essa desigualdade se reflete no espaço urbano, cidades grandes como São Paulo, regiões centrais e bairros de maior renda possuem a maior parte das salas, enquanto áreas periféricas permanecem sem nenhum cinema. Distritos como Grajaú e Cidade Tiradentes não possuem salas comerciais, segundo dados da Rede Nossa São Paulo.
Streaming x cinema

O isolamento durante a pandemia de Covid-19 impulsionou o consumo de conteúdos sob demanda, consolidando o streaming no orçamento familiar brasileiro. Com a praticidade e os custos reduzidos de assistir em casa, muitos passaram a frequentar menos as salas escuras.
Apesar da queda nas bilheterias, esse cenário fortaleceu a produção nacional por meio de novos investimentos e maior visibilidade em catálogos globais. O cinema e as plataformas digitais deixam de ser apenas concorrentes e passam a atuar de forma complementar: o digital não substitui a experiência da sala, mas transforma a maneira como o público descobre e consome suas próprias histórias.
Políticas e o futuro do cinema
Para retomar o hábito do espectador, o cinema brasileiro depende de políticas públicas consistentes que não transformem a experiência em luxo. A retomada exige investimentos contínuos e o papel do Estado para equilibrar o mercado e fortalecer as produções locais. Nesse cenário, a Lei de Cota de Tela, retomada em 2024, é peça fundamental para garantir que o filme nacional encontre seu espaço nas salas.
Contudo, a cota sozinha não basta. É necessário descentralizar o circuito, levando salas para diferentes regiões e garantindo ingressos mais acessíveis que aproximem a sétima arte do cotidiano. Formar um público fiel exige democratizar a entrada e desconstruir preconceitos históricos, colocando o espectador no centro da experiência. O futuro do cinema brasileiro depende, enfim, de fazer com que mais pessoas se sintam convidadas a viver histórias feitas aqui.
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