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9-abril-2026 Ano 2

O que aconteceu com os italianos da Mooca?

Uma análise da gentrificação e preservação histórico-cultural das descendências italianas na Mooca “A tradição da Mooca é a mais italiana,…
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Uma análise da gentrificação e preservação histórico-cultural das descendências italianas na Mooca

Foto que retrata a Mooca baixa, área mais tradicional e de baixa renda do bairro.
Um dia cotidiano na Mooca baixa, a área que mais preserva a tradição itálica do bairro.

“A tradição da Mooca é a mais italiana, agora, tá mista. Mas, sempre foi um bairro tradicional”, disse seu João de Paulo, um homem de 83 anos que vive há mais de 45 anos na Mooca, um dos grandes bairros italianos do País. Contudo, com o crescimento da gentrificação na região, as casas, os símbolos e as heranças histórico-culturais foram compradas por conglomerados privados.

Fundado em 1556 pelos jesuítas, recebeu seu nome em homenagem às falas dos nativos “Moo-oca!”, que, em tupi, significa “fazer casa”. A Mooca ganhou grande relevância no século XIX, com a chegada das ferrovias em São Paulo e do Conde Rodolfo Crespi, italiano e proprietário do Cotonifício Crespi, o que já foi a maior fábrica de tecelagem do Estado.

Com a explosão operária e a chegada dos imigrantes na baía de Santos, os italianos se mudaram para a cidade de São Paulo e se alojaram na Mooca. Graças a isso, a criação de cantinas e identificações culturais se impregnava na população do bairro, de maioria itálica e trabalhadora.

O grande ponto de referência e união da estirpe italiana do bairro da Mooca surgiu apenas em 1924. O futebol, já utilizado como agente social e fator de identificação, crescia num bairro onde buscava o lazer após o trabalho exaustivo. Com a união dos times de várzea Extra de São Paulo e o Cavalheiro Crespi, foi fundado o Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube, o atualmente conhecido Juventus.

O “moleque travesso”, apelido do grande clube mooquense, foi um símbolo de luta e resistência frente ao crescimento derradeiro da ideologia fascista italiana pelo mundo, se prostrando contra times e instituições abertamente coniventes com o regime de Mussolini. O time fabril, homenageando as cores do Torino FC e o nome do clube Juventus FC, ambos da cidade de Turim, se tornou o grande ícone de um bairro de luta e perseverança.

Foto retirada do jogo Juventus X Sertãozinho pelo campeonato paulista A2.
Foto que retrata os torcedores do Juventus da Mooca eufóricos com a vitória.

Contudo, com o passar dos anos, o conceito de gentrificação (o ato de pegar áreas urbanas de baixa renda, históricas e/ou culturais e aumentar seu valor imobiliário, removendo as origens e antigos moradores, com foco na chegada de pessoas de alta renda) afetou não só a Mooca, como seus moradores e símbolos.

“Em comparação com uma São Paulo que tinha 60% da comunidade italiana presente e viva, hoje é apenas uma saudade”, disse o jornalista e historiador Fernando Galuppo referente à situação hoje vivida no bairro da Mooca, com o crescimento da especulação imobiliária e da evasão e falecimento das grandes e tradicionais famílias italianas.

Um dos mais afetados nisso tudo foi o próprio clube e ícone mooquense, onde foi vendido para uma SAF, a Contea Capital, da qual adquiriu noventa por cento dos direitos do clube. “Eu acho que a história deve ser uma referência, não uma bola de chumbo que lhe prenda”, disse Galuppo à Agenzia. “A história não pode ser uma muleta para justificar uma estagnação. A tradição do Juventus é imorredora.”

O aumento da globalização no mundo proporciona a compra de tradições e histórias, onde pode ser vista principalmente nas proximidades da estação de trem Juventus – Mooca, da linha 10 – Turquesa. Do lado exterior, a preservação da estrutura da antiga estação, com a escrita antiga do português, misto com a fonética italiana. No lado oposto da calçada, há um condomínio fechado de alta renda, escancarando o começo do fim da história italiana da Mooca.

As crescentes construções de grandes prédios com alta capacidade e a venda e abandono de antigas fábricas, cantinas e residências vai de contra à “Dolce Vita”, conceito de vida tradicional da Itália, onde o foco é viver com a interação social, sem preocupações e com grandes laços familiares e entre amigos.

O isolamento imposto na sociedade retira a interação social com vizinhos, colegas de trabalho e família, tendo em vista a construção de academias, mercados e praças dentro dos condomínios. Quanto mais preso ficamos, menos vemos uns aos outros.

“Quando algo, um local ou um estabelecimento é comprado aqui na Mooca, há o valor da taxa da cultura e da tradição, onde o proprietário é quem a cobre”, disse seu Antônio, conhecido do bairro e funcionário da Di Cunto há 38 anos. Antônio disse que a arte da produção dos panetones italianos é um método de resistência na Mooca. 

Foto que retrata uma estante de panetones italianos da Di Cunto.
Uma estante de panetones tradicionais italianos na confeitaria na Mooca Di Cunto.

“Eu amo essa área, amo trabalhar aqui, a cozinha, o bar, servir os meus clientes. Esse amor não tem preço, é uma coisa que eu gosto de fazer, que eu faço de coração pelos meus clientes. Querem comprar a Mooca. Estão derrubando a Mooca para fazer empreendimentos”, disse Luciano Ferreira, pernambucano, residente da Mooca e proprietário de uma das grandes docerias e produtoras de panetones do bairro italiano, a Di Cunto.

“Até a própria transformação das festas de rua, que tinham um apelo muito maior e hoje tem o seu espaço e um calendário muito bacana. A festa de Nossa Senhora de Casaluce no perímetro Brás-Mooca; no Brás, a festa de São Vito; Nossa Senhora Achiropita e San Genaro, na rua Dom Bosco, na Mooca”. As festas religiosas e culturais não enfatizam apenas um ponto de vista de fé, mas de tradição, culinária e ideologia.

Com a “queda” do símbolo mais icônico da Mooca, o Juventus, gerada por uma má gestão e aproveitamento das grandes empresas em adquirirem uma identidade cultural para as mesmas. Contudo, os descendentes de imigrantes, institutos e defensores da perpetuação da história enfatizam novamente um “viva la resistenza” frente à compra e apagamento sociocultural não só da Mooca, como de todos os grandes bairros italianos do estado e do País.

“Posso listar vários trabalhos que mantém, preservam e difundem de uma maneira viva e não de uma maneira saudosista e melancólica essa memória”, afirmou Fernando Galuppo. A resistência e história italiana mooquense, mesmo com dificuldade, ainda persiste, com a ajuda e presença do consulado italiano, o memorial do imigrante, o instituto de cultura, o arsenal da esperança, etc… “No tempo que eu peguei, você ainda tinha as gerações de nonno e nonna (avô e avó em italiano, respectivamente) e eu, inclusive, como um neto, ajudava a fazer a massa de macarrão, a fazer molho…”

Foto de um antigo casarão de esquina na Mooca, hoje em dia, mal cuidado.
Esquina da rua Mooca, retratando um antigo casarão em estado de alugamento, simbolizando um abandono e esquecimento da cultura itálica.

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